Orkuto logo existo
Este artigo foi publicado originalmente em: RAMAL, Andrea Cecilia. “Orkuto, logo existo”. Cuiabá: Jornal A Gazeta, 18/09/2004; e republicado pelo Jornal Folha de Pernambuco, em 29/09/2004.
Pensar a subjetividade hoje implica incluir a tecnologia. Nesse novo modo de estar no mundo, somos constituídos também pelos ambientes tecnológicos em que transitamos. Eles são suportes a partir dos quais se vivem experiências de interação tão constitutivas do sujeito quanto o diálogo interpessoal do mundo real. Ortega y Gasset diria hoje: Eu sou eu e minhas conexões.
O mais novo ambiente intersubjetivo é o Orkut, serviço on-line de redes sociais criado pelo alemão-turco Orkut Buyukkokten. Nele, as pessoas podem ter o seu blog e listar seus amigos e interesses pessoais. Visitando a lista de amigos de um amigo, pode-se conhecer gente nova. Esses itinerários criam as mais variadas comunidades virtuais, desde aquelas reunidas em torno de interesses acadêmicos, até as mais irreverentes, como “Eu gosto de biscoito Globo”, que derrubam qualquer critério lógico para o intercâmbio de mensagens.
O Orkut tem um aspecto fascinante: é uma comprovação de que, embora vivamos no mundo da técnica, os laços humanos continuam se construindo a todo custo. Orkutar é uma forma de dizer: detrás da máquina há uma pessoa com sentimentos e visões que deseja compartilhar. O Orkut é o lugar para essa necessidade de afeto que transborda dos laços e das redes do ciberespaço.
Um exemplo disso foi a romaria virtual que ocorreu ao blog de Fernando Villela (o Fervil), assassinado num assalto no Rio. Mensagens de saudade, denúncias contra a violência e uma comunidade “Fervil não morreu” foram formas inusitadas de homenagear esse pioneiro da reflexão sobre o fenômeno internet no país.


